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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Nota de Falecimento

Essa semana uma amigo de nossa família faleceu.

Não era desses amigos com os quais falamos todos os dias, nem daqueles com os quais saímos para passear.

Era um amigo vizinho.

Não desses que vemos todos os dias.

Era um amigo vizinho de época de férias, de feriados, de feriadões, de finais de semana, de épocas de descanso e alegria, o que não o tornava menos amigo que todos os outros amigos.

Planejava uma mudança para a casa de praia e andava investindo boa parte do tempo nisso: reformar a casa, colocar a saúde em dia....

Até que decidiu que seria mais prudente submeter-se à uma cirurgia. E lá ficou.

É estranha a sensação de dar adeus (ou até a próxima!) para as pessoas que nos cercam. Por mais que já tenhamos feito isso algumas vezes.

É como se a morte condenasse as amizades a um período do tempo já passado e nos obrigasse a aceitar a irrefutável certeza de que o nosso tempo aqui na Terra tem início, meio e fim.

A partir da morte, a amizade fica ancorada no passado, perde a capacidade de se transformar e torce para que as boas lembranças se encarreguem de fertilizá-la, para que ela, sim, seja eterna.

A morte também me dá a sensação de que a parte de mim que dedicava aquele que partiu fica um pouco morta também, sofrida, abatida, desejosa de mudar o imutável.

E sinto tudo isto mesmo tendo a morte como assunto recorrente aqui em casa em razão das indagações de Pedro.

E, se a morte é transformação, creio que viveremos essa amizade interrompida através de Juliana e Pedro, amigos desde o berço, amigos de época de férias, de feriados, de feriadões, de finais de semana, de épocas de descanso e alegria e, nem por isto, menos amigos.

Juju e Pepê na primeira Festa Junina 






quinta-feira, 7 de julho de 2011

E a Morte o que é, diga lá meu irmão?

A música de Gonzaguinha indaga-nos sobre o que é a vida, mas aqui em casa a pergunta é outra. O que é a morte?

É engraçado um tema como esse num blog sobre criança. Geralmente esperam-se assuntos mais suaves, mas Pedro confrontou-nos com o tabu da morte cedo demais e tivemos que lidar com ele.

Aos dois anos Pedrinho percebeu que nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. E não gostou disso. Decidiu, então,  que não queria mais crescer. E passou o segundo ano de sua vida nessa espécie de síndrome de Peter Pan.

Aos três queria saber se há meios de não morrer, de se escapar do ciclo vida-morte. Queria saber o que os cientistas já conheciam sobre o assunto e afirmava que inventaria uma forma do homem ser imortal.

Suas perguntas sempre me angustiaram um pouco. Na verdade a angústia era mais por achar que ele era novo demais para viver este conflito do que por temer a própria morte.

Pedrinho já tinha quase quatro anos quando Brutus, o nosso cachorro, morreu. Só que nessa história houve um erro. Brutus não morava conosco, mas na casa de praia e, nesse dia, estávamos lá. O erro foi não termos deixado Pedro perceber que o Brutinhos, que estava tão dodói naquele dia, morreu. Distraímos Pedro e retiramos o cachorro de casa. Explicamos o que tinha acontecido mas Pedro não viu Brutus, não chorou, não velou, não enterrou... E após esse episódio Pedro viveu um luto sem corpo, um luto difícil porque não traz em si o conforto da última despedida. Arrependi-me profundamente de ter privado meu filho de viver a experiência da separação, da morte.

Brutus tinha uma irmã, a Mocinha. E Mocinha morreu tempos depois do irmão. Desde a morte de Brutus começamos a preparar Pedro para separar-se de Mocinha: conversávamos que ela já estava velhinha, depois que estava doente, muito doente, até que chegou o dia em que informamos Pedro de que Mocinha tinha ido para o hospital. E foi mesmo. Só que para Mocinha só restava uma opção: o sacrifício. Não falamos sobre o sacrifício para ele. O que Pedro sabia é que a cachorra estava no hospital e cada vez que íamos à casa de praia questionava que ela estava demorando a voltar e eu confirmava que sim e explicava que isso estava acontecendo porque Mocinha estava muito doente.

Até que um dia Pedro deduziu:

"Ninguém fica tanto tempo assim no hospital. A Mocinha morreu também ."

Após sua fala ficamos em silêncio, abraçados, relembrando a alegria dos cachorrinhos no quintal.

Aos quatro anos os questionamentos sobre Deus, alma, evolução, reencarnação, vida em outros planetas era constante.

Hoje, aos cinco, Pedro tem pensado muito sobre a morte, a evolução geológica e antropológica, bem como sobre a vida em outros planetas. E isso o deixa inquieto. Nas horas de angústia sugiro que desenhe. Em uma das vezes desenhou uma série sobre evolução:

Época dos Dinossauros

Época dos Índios

Época dos Castelos

Época atual (essa é a ladeira em que moramos)

O Futuro


Foi por esses dias também que perguntou:

"Mãe, os filhos podem ter religião diferente da dos pais? É que as coisas que aprendi até agora não estão me fazendo feliz."

Esse texto não é conclusivo, só relata os enfrentamentos que temos vivido aqui em casa.  E enquanto Pedrinho não se sentir confortável diante da certeza de que vamos morrer; a morte, que já deixou de ser tabu aqui em casa faz tempo, visitará este blog porque visita o meu coração.