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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A Receita para descobrir um superdotado


Neste excelente texto, Maria Lúcia Sabatella traz perguntas e respostas para as primeiras dúvidas que pegam de assalto os pais dos superdotados.  



"Pais, professores e médicos precisam de preparo e informação para identificar crianças com talentos especiais"

A receita para descobrir um superdotado
Uma criança de pouco mais de um ano, que mal consegue falar, é levada ao Instituto para Otimização da Aprendizagem (Inodap), em Curitiba. Os pais estão surpresos com o bebê, que já sabe todas as letras do alfabeto. Ele aponta para a letra “p” de um joguinho de blocos e diz “papai”. A pesquisadora Maria Lúcia Prado Sabatella, que atende o casal, pega o bloco com a letra “m” e arrasta para o bebê do outro lado da mesa.“É ‘m’ de mamãe?”, pergunta à criança, que responde: “w”. Só depois de alguns instantes, os adultos percebem que o “m” estava virado de ponta-cabeça em relação ao bebê, que via mesmo um “w”. Assim são os superdotados: surpreendentes. É gente brilhante, em diferentes áreas, cada um desempenhando o seu melhor – bem acima da média.A consultora e pesquisadora Maria Lúcia Prado Sabatella é mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná, especializada na área de Superdotação e Talento. Delegada do Brasil no Conselho Mundial para Crianças Superdotadas e Talentosas, ela acaba de lançar o livro Talento e Superdotação: Problema ou Solução?, pela Editora IBPEX, e fala mais sobre o tema de seus estudos.

O que define um superdotado?
Superdotado é aquele indivíduo que tem uma ou mais habilidades expressivamente acima da média em algum campo do saber ou do fazer. São pessoas normais, mas não são comuns.

Os superdotados são poucos?
Não há uma estatística brasileira, pois em nosso país não fazemos identificação nas escolas. A Organização Mundial da Saúde estima que 3,5% a 5% da população mundial seja superdotada. No entanto, esse dado se baseia apenas em testes de Q.I. (Quociente de Inteligência), que é um dos instrumentos utilizados na identificação de superdotados e testa somente as áreas acadêmicas da inteligência – lógica e verbal. O Garrincha, por exemplo, foi considerado praticamente um débil mental em um teste de Q.I., mas era, evidentemente, um atleta brilhante, um superdotado psicomotor. Assim, quando são incluídas as demais áreas da inteligência, que podem envolver habilidades como liderança, capacidade de mediação, argumentação e criatividade, o número de pessoas superdotadas pode subir para cerca de 12%.

Nesse exemplo do futebol, superdotação é o que se chama usualmente de talento?
Na literatura costuma-se encontrar a referência a “superdotados e talentosos” evidenciando que de forma implícita o talento designa habilidades nas artes e atividades corporais, enquanto o termo superdotado é aplicado às pessoas com grandes habilidades intelectuais e acadêmicas. Indivíduos superdotados destacam-se em uma área ou em um grupo delas independentemente da categorização de sua habilidade.

E os gênios?
Geralmente, quando se fala de superdotado, faz-se uma correlação imediata com o gênio. Mas o gênio é aquele que contribui com a humanidade, que perdura por gerações. O gênio quebra paradigmas e conceitos previamente estabelecidos, como o Einstein. Todo gênio é um superdotado, mas nem todo superdotado é um gênio. A genialidade é o nível mais alto de superdotação.

O que os pais devem fazer ao identificar a superdotação no filho?
Tem que procurar bibliografia e ajuda de profissionais especializados, conversar com outros pais de superdotados. No Instituto para Otimização da Aprendizagem, que presido, fazemos grupos com os pais a cada semestre e a troca de experiências é muito rica. Os pais de superdotados se sentem marginalizados e relutam em falar sobre os progressos dos seus filhos. É importante que os pais tenham consciência de que se trata de uma criança especial e que se informem a respeito. Quando nasce um filho com Síndrome de Down, por exemplo, os pais correm a se preparar para essa condição e o mesmo deve ser feito se a criança é superdotada. Isso passa também pela escola, onde os professores devem ser esclarecidos sobre o tema.

As escolas estão preparadas para os superdotados?Infelizmente, não. Apesar de a Lei de Diretrizes e Bases, de 1996, tratar da educação especial, não só para as pessoas com deficiência, geralmente enquadradas nesse tipo de educação, mas também para os superdotados. E eles não são tão poucos. Analisando a população escolar, pode-se dizer que, em cada sala de aula, há uma ou duas crianças superdotadas. Muitas vezes, são justamente aquelas que ficam inquietas e fazem bagunça, porque já terminaram as tarefas, ou porque não precisam copiar nada do quadro, já que têm tudo memorizado. O superdotado precisa de mais desafios. O professor pode sugerir atividades que enriqueçam e aprofundem o conhecimento e poderá se surpreender com os resultados. Um superdotado, na sala de aula, pode favorecer um ensino de maior qualidade para todos os alunos. Se estiverem estudando, por exemplo, os afluentes do Rio Amazonas, o professor pode sugerir que os alunos que tiverem vontade pesquisem e se aprofundem na cultura amazonense, por exemplo. Fizeram isso em uma escola e tiveram que abrir um museu sobre a região Amazônica, tamanha a pesquisa feita pelos alunos. O estímulo serviu para mostrar que todos os alunos produzem mais quando há incentivo e interesse. No entanto, via de regra, o professor, o psicólogo ou o médico não estão preparados para identificar e lidar com os superdotados.

Nem mesmo os médicos?
Muitas das “características” do superdotado são muito semelhantes aos comportamentos apresentados como sintomas da hiperatividade e do déficit de atenção,que estão tão em moda. Se a criança começa a perguntar demais, interrompe a aula, não copia a agenda ou completa tarefas, muitos professores têm indicado que os pais procurem um médico sugerindo que o filho é hiperativo. Não é competência dos professores fazer diagnóstico e essa atitude tem levado muitas crianças apenas curiosas, saudáveis e que aprendem com mais rapidez, a serem medicadas como hiperativas. Tudo acaba sendo resolvido na base da “babá-química”. O aconselhável é investigar o potencial do aluno que apresenta as características de que falamos, antes de se pensar em diagnóstico.

A superdotação é inata? Há alguma relação com a classe social?
Nem uma coisa nem outra. De fato, há um componente genético. Geralmente, indivíduos superdotados vêm de famílias que apresentam essa mesma característica. Mas não é algo inato, já que, se assim fosse, todas as pessoas de determinada família que possui superdotados seriam igualmente brilhantes. E isso não acontece. Há o componente externo, os estímulos, a interação com o meio. E aí eu dou um exemplo de como a superdotação não tem nada a ver com a classe social. Eu já vi uma criança de cinco anos, moradora de assentamento sem-terra, que me explicou corretamente temas como o Produto Interno Bruto do Brasil e a inflação do país. Como ele aprendeu isso? Com as páginas de jornais velhos que eus pais lhe davam para pintar. Mas assim como a inteligência não tem classe social, ela é amoral. Essa criança do assentamento optou pelo caderno de economia do jornal. Mas ele poderia ter preferido ler algo que lhe aguçasse o interesse por coisas erradas. Ou seja, a inteligência pode ser mal direcionada. O Fernandinho Beira-Mar, por exemplo. Ele é brilhante. Tanto que, mesmo preso, continua comandado sua facção criminosa e ninguém consegue impedir isso. Dá para colocar o corpo atrás das grades, mas a cabeça não. Ele é uma das muitas pessoas brilhantes mal direcionadas. Por isso, é importante haver estímulos positivos, sobretudo às crianças superdotadas.

Em tempos de tecnologias como a internet, esses jovens não são superestimulados?
Tudo o que é exagerado é ruim e isso não tem a ver com a internet ou os videogames. Assim como a criança que não sai da frente do computador, aquela que fica afundada nos livros, sem fazer outra coisa, também não está se desenvolvendo adequadamente. É importante que a família estimule tudo, inclusive atividades que tirem a criança de casa. Mas eu acho que essa geração que cresce entre computadores se desenvolve mais rapidamente e isso é positivo. Eu costumo dizer que, havendo dúvida se a criança é ou não superdotada, o melhor a se fazer é criá-la como superdotada, ou seja, estimulá-la constantemente. Às vezes eu ouço dizerem que uma criança de 4 anos, por exemplo, é muito nova para ir à escola. Como assim? Vá na favela ver se crianças com essa idade já não trabalham como olheiras para os traficantes. Se podem fazer isso, podem ir para a escola!

Se essa criança não for educada da maneira adequada, ela pode perder o talento?
Ela pode não desenvolver seu máximo e isso, sobretudo para alguém com potencial, é frustrante. Por falar em frustração, é importante que os pais não criem expectativas demais sobre a criança. Não é por ser superdotada que ela não pode ir mal escola, ou tirar uma nota baixa. Superdotado não é perfeito. Como eu disse no início, o superdotado não é comum, mas é normal.

Como identificar um superdotado?
A superdotação é mais fácil de ser identificada na infância e adolescência. Por isso, pais e professores devem ficar atentos a algumas características que podem evidenciar o brilhantismo dos jovens. 

A criança pode ser superdotada se:
1. Apresenta muita facilidade na escola, a ponto de incomodar os professores por não se sentir suficientemente desafiado;
2. Tem uma grande sensibilidade, não é vingativa e não responde a agressões;
3. É muito curiosa e pergunta insistentemente sobre um mais temas específicos;
4. Memoriza com facilidade, especialmente detalhes, como a cor da meia que o avô usava na ceia de Natal do ano retrasado;
5. Preocupa-se muito com tudo, por conseguir analisar as conseqüências das coisas. Se o pai diz que teve uma discussão no trabalho, o superdotado pode chegar à conclusão que vai passar fome, já que o pai perderá o emprego;
6. Faz tudo com muita intensidade, dedica-se por inteiro ao que se propõe, seja nos estudos, seja no amor, por exemplo;
7. Tem um senso de humor adulto, geralmente irônico ou sarcástico;
8. Faz interpretações literais. Se ela está brincando no jardim e a mãe pede que “saia do sol”, pode responder: “mas eu estou na Terra”;
9. Possui um vocabulário extenso para sua idade, pronuncia as palavras com correção e observa a concordância ao falar.

Fonte: Dra. Maria Lúcia Prado Sabatella" do Instituto para Otimização da Aprendizagem - Inodap - é uma ONG que atende crianças e adultos superdotados, com acompanhamento familiar e escolar. Informações pelo telefone (41) 3343-3448 
Dica de Flor!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Comunidade no Orkut: Pais de Superdotado

Se seu filho é SD, corra para lá. Mas, se você apenas suspeita que seu filho seja, corra também!

A comunidade Pais de Superdotado é comandado pela advogada Cláudia, ela mesma mãe de dois  pimpolhos SD, com total dedicação.

Foi lá que encontrei pais que enfrentaram (ou enfrentam) os mesmos dilemas que eu. 

Só lamento o fato de ter encontrado Cláudia e esta fantástica legião de pais tão tardiamente. 

Pois é, acreditem: sem informação, uma criança de 5 anos SD que não teve a sorte de encontrar escolas adequadas já tem muita história para contar.

Então fica o convite: passem por lá, troquem experiências e mergulhem nas informações.


COMUNIDADE NO ORKUT PAIS DE SUPERDOTADOS:









domingo, 5 de junho de 2011

Gênios, prodígios e superdotados: esclarecendo conceitos e desfazendo mitos

Para a literatura especializada, há uma grande diferença entre os três termos. Conhecê-los ajuda-nos a entender as crianças e adultos talentosos em suas diferenças:



PRODÍGIO
È a criança precoce e com alto desempenho em determinado campo, no mesmo patamar de um adulto profissional.









GÊNIO
Termo referente às pessoas que inovaram, deram contribuições originais e de grande importância para a humanidade.




PESSOA COM ALTA HABILIDADE/SUPERDOTADO
Aquela que apresenta sinais ou indicações de habilidade superior em alguma área de conhecimento quando comparado com seus pares.






Fonte: MEC

PARA SABER MAIS:

Livro em PDF
Altas Habilidades/ Superdotação- Encorajando Potencias
Angela Virgolim - MEC


sábado, 4 de junho de 2011

Pedro usa a sua lógica no Planetário

No Planetário há uma tela em que basta digitar uma data para que você conheça a configuração do céu naquele dia.

Pedro ficou muito tempo ali, testava várias datas, queria saber se era do futuro, do passado...

De repente ele solta essa: "Mãe, vamos digitar assim: 00/00/0000.

Aí conheceremos o céu no dia em que houve a explosão que criou o mundo (universo)!"

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Que cheiro é esse? Conversando sobre a hipersensibilidade sensorial em superdotados

Tudo aconteceu na escola.

E é lá mesmo que acontem os mais impactantes acontecimentos na vida de uma criança superdotada.

Pedro estava na aula de culinária - pode soar estranho um menino em uma aula de culinária, mas é que a escola pretende ensinar conceitos de matemática de uma forma mais concreta - e a aula que começou no térreo terminou no oitavo andar.

Explico: a cozinha fica no térreo, mas Pedro saiu de lá correndo, desvencilhando-se das professoras e indo parar no último andar do prédio.

O motivo? Os cheiros. Pedro contou que sentia uma mistura de cheiro de bolo, com cheiro de ovos, mais cheiro de gelatina, misturado com cheiro de fritura.

Uma mistura horrível segundo ele.

Tententei decifrar essa mistura de cheiros e concluí que, possivelmente, na cozinha das crianças, enquanto sua turma aprendia a fazer gelatina; um bolo, de outra turma, deveria estar sendo assado. Já o cheiro de fritura deveria estar vindo da cozinha que atende ao refeitório já que nesse dia o almoço teria como carne peixe à milanesa.

O resumo da história é que esta profusão de cheiros foi demais para ele.

Conincidência ou não havia lido no blog  Mães de Crianças Superdotadas um artigo sobre a sensibilidade sensorial dessas crianças.

E, de fato desde pequeno observo em Pedro uma irritabilidade quando exposto à certas circunstâncias como locais lotados, barulhentos, liquidificador, cheiro de suor, e por aí vai.

Paula Jarrard, em seu artigo "Sensory Issues in Gifted Children: Synthesis of the Literature", aproveitando o conceito da Teoria da Desintegração Positiva de Dabrowski, esclarece que essa superestimulação envolve não só fatores psicológicos, mas neurológicos, também e que há estudos demonstrando a hipersensibilidade dessas crianças ao barulho, à dor, à frustração, além de uma hipersensibilidade emocional.

Até bem pouco tempo, apesar da certeza sobre a superdotação de Pedro, não tinha idéia alguma sobre os aspectos emocionais, sensoriais e comportamentais que envolvem essas crianças.

Comportamentos de Pedro como: "desliga esse liquidificador", "eu não gosto de barulho de refogado", bem como um choro que reflete uma profunda tristeza (quase um luto) quando um brinquedo se quebra, a tamanha dificuldade de lidar com a frustração passam hoje a fazer sentido.

Denise de Souza Fleith, no artigo Altas Habilidades e Desenvolvimento Socioemocional, parte integrante do excelente livro Desenvolvimento de Talentos e Altas Habilidades faz referência a Pichowski ao explicar que os superdotados reagem ao ambiente de forma intensa e isso se dá de cinco formas:

1- Reação psicomotora- "que é vista como a capacidade de ser ativo e energético (fala rápida, impulsividade, pressão para a ação(...)";
2- Reação sensorial- referindo-se ao "prazer dos sentidos e à apreciação do belo";
3-Reação Intelectual- é aquela fome por saber mais, e mais, e mais...
4- Reação imaginativa- "manifesta pelo uso frequente de imagens e metáforas, facilidade em inventar e fantasiar, visualização detalhada, pensamento mágico, tendência à dramatização, mistura de fato com ficção (...)";
5- Reação emocional- sentimentos intensos, reações psicossomáticas, "timidez e entusiasmo, medos, ansiedades, preocupação com a morte, depressão, preocupação com os outros, sensibilidade nos relacionamentos, apego aos animais, dificuldade de se ajustar a novos ambientes, sentimentos de inadequação ou inferioridade e auto avaliação".

Eunice Soriano, em seu artigo Características sócio-emocionais do superdotado: questões atuais, vai além e afirma que, de acordo com  Dabrowsk, a desintegração positiva, essa multifacetada hipersensibilidade dos superdotados, é catalizadora de um "desenvolvimento emocional mais avançado".

Para Pedro, a overdose de cheiro foi demais, atingiu o seu ponto ótimo. O problema é que a tia do jardim de infância nem imagina que crianças como Pedro podem ser hipersensíveis ao ambiente. Mas isso fica para um outro post!

PARA SABER MAIS:

Internet:
Sensory Issues in Gifted Children: Synthesis of the Literature; Paula Jarrard

Sensibilidade Sensorial; Blog Mãe de Crianças Superdotadas

Características sócio-emocionais do superdotado: questões atuais; Eunice Soriano

Livro:
Desenvolvimento de Talentos e Altas Habilidades - Orientação a Pais e Professores; Denise de Souza Fleih e Eunice M. L. Soriano de Alencar (organizadoras); Ed. Artmed